XLIV

  

Também devo guardar alguns capítulos deste romance para uma outra ordem de acontecimentos: as descobertas inadvertidas, neste caso, descobertas de livros, cartas, rascunhos, poemas. É possível que muitos não liguem a esses papéis. Na maioria dos casos, principalmente sendo encontrados soltos, sem estarem em caixas, em arcas, atados em molhos ou em cadernos, devem passar despercebidos e ir para o lixo. E este foi um desses. Tenho a certeza que deve ter sido escrito pela Francisca, mas ela não o juntou ao livro das Orações a um Deus Desconhecido. Pelo tipo de escrita, pela sintaxe e pelo pensamento, parece ser mais tardio. Mas não tem data, nem assinatura. Não sei sequer se ela gostaria de o assinar como Françoise M., pela simples razão de não se querer mostrar nem identificar (razão que acho que devia ser sempre insuficiente para levar alguém a fazer uma corruptela do nome próprio). Estava debaixo do forro de uma gaveta, no seu quarto, e, na altura do seu desaparecimento, passou-nos desapercebido. É um estranho sítio para deixar um poema, mas não quero de modo nenhum comentá-lo, nem quero dizer agora o que sinto. Quero apenas deixar aqui o poema da Francisca.

 

Deus

Deus infinito e misterioso, nunca
totalmente compreensível, capturável, 
nas sensações, no pensamento:
tu és todo este cosmos que imagino
respirando em movimento estranho e inapreensível,
quase insensível, mas a cujo balanço
pertencemos nós, todos os grãos de poeira,
toda a poalha das estrelas e dos detritos
que vão sobrando da pedra dos planetas.
Gostava de ouvir essa canção de embalar
que devem fazer as estrelas girando,
gostava de sentir esse embalo que devem levar
em si as galáxias formado vias e rios,
e nós flutuando nelas, as partículas, os corpos ínfimos,
as areias das praias infinitas.
Sei agora que estás em toda a parte
mas que para ti não existe nem pequeno nem grande,
nem dentro nem fora, nem avesso nem direito,
nem por cima nem por baixo.
Como foi estranho e aventuroso esse caminho
que me levou a saber isto, com todas as fibras
da minha alma e do meu corpo,
com toda a certeza e toda a fé da minha carne
que sabe que existe porque sabe que existe;
e como é insignificante e incontável
(mas dramático, infinitamente dramático)
o pequeno episódio que me levou a essa fé,
chamemos-lhe... conclusão.
O que parece muito talvez seja realmente pouco,
muito pouco, quase nada mesmo,
e não existe o nosso antes e depois
mas existe um antes e depois que é caminho 
em que vamos como que andando em direcção a ti,
vamos estando mais perto por uma sucessão
por vezes tormentosa e outras quase invisível
de visões e sensações que atravessam o corpo
como ventos, cataclismos, revoluções,
doenças ou catástrofes
e essas são as nossas coisas,
coisas de homens e de bichos que nascem e morrem
de repente e sem grandes anúncios,
sem um aviso realmente esclarecido que nos prepare
de um modo conveniente a todos, 
quanto à chegada e quanto à partida.
Estou dentro de ti como tu dentro de mim,
somos a parte sem parte um do outro.
Dançamos, realmente dançamos
de um modo absurdo porque seria um quadro de Escher,
se o pintasse, e trocamos os pares e os passos
numa dança sem pista nem compasso
mas que ainda assim é música,
ainda assim é dança porque é corpo dentro de música,
é um corpo-música, realizando som...
Será certa música o que mais se parece
de um modo inteiro com Deus?
E o corpo dançando, entrando na música,
ardendo e destilando o seu suor, a sua água,
e como se na água entrasse, com ela se fundisse,
música-mar, música-rio, música-via láctea
(...)
Não há como falar do transe e do êxtase
em que de repente podemos ser tocados pelo esplendor,
pela simples luz de uma paisagem ou de uma visão do céu.
A luz também pode ser talvez uma das coisas
mais parecidas com Deus.
Pelo menos no impacto com que do nada
nos atinge, como um soco que nos atira ao chão.
Vê-se Deus no rosto das crianças e na alegria,
no espanto com que acabam de chegar.
Vê-se Deus no mesmo espanto que às vezes retorna
ao rosto dos velhos e aí se instala
(e parece um monumento, um dólmen, uma ruína).
Vê-se Deus em certa bondade imprevista, inimaginável,
e no amor não-humano dos filmes de Tarkovski
mas que existe também em qualquer coisa
que se despega das paredes, das paisagens mudas,
da água pingando, do vento passando pelas árvores,
das noites frias e desertas e do alcatrão deserto
das estradas sem gente.
Esse amor sente-se às vezes nas grandes solidões
e nos grandes silêncios e até nas grandes perplexidades
 e não é uma coisa doce nem terna e faz medo, faz muito medo:
é uma grande estranheza quase incomunicante 
como a grande solidão dos sonhos realizados de Solaris,
quase uma loucura e um grande abismo,
uma coisa de certo modo horrível,
até repulsiva.
É um amor que talvez para a grande maioria de nós,
pelo menos para mim, esteja por aprender e praticar,
mas quando de repente o descubro os meus olhos
ficam cheios de lágrimas e o meu coração
cheio de um grande arrependimento,
paradoxal e inexplicável.
Afinal, arrependo-me de quê?
Acho que me arrependo deste modo humano de amar,
quando de repente vislumbro outro, que é tão imenso.
É verdade que Jesus nos falou desse amor
e que as igrejas foram fazendo guerras dele.
E as palavras de Jesus havemos de as ouvir sempre
com grande emoção e dificuldade,
porque são uma revolução, mais do que uma salvação.
O amor é uma paleta de infinitos modos
e os mais intensos não são os mais óbvios:
onde está o livro que me fala destes amores?
Este livro ainda não existe.
Por vezes percebemos uma pequena coisa
quase impossível de descrever, uma contracurva da nossa alma,
e sentimos uma alegria imprevisível, totalmente infantil,
e um grande consolo e uma paz imprevista, paradoxal.
O que mais desejamos, a vida nos mostra,
é afinal o que menos esperamos.