XLV

 A minha fé é como a terra. 

Tem muitas camadas e muitos estratos, 

uns sobre os outros. 

A minha fé é assim, porque eu não tinha fé.

A minha fé começou em ser habitante do esplendor.

O esplendor que de repente entrava nos olhos,

a propósito de nada.

O esplendor que tomava conta das sensações,

o esplendor de uma terra em chamas

e em que cada coisa ardia com luz própria.

O esplendor que fazia cantar as visões,

até que os ossos 

fossem líquidos como lágrimas.

Esse esplendor sinfónico 

a partir do qual apenas podia pensar:

Deus.

Ser, talvez, atacado por uma ideia.

Em ver o esplendor, a ideia era Deus:

um Deus sem ideia, sem nenhuma ideia.

Um deus que ocupava todo ele

a sensação do esplendor.

Pensamento tão trôpego, tão difícil,

tão desesperado. 

O pensamento não podia, não podia

acompanhar a dança invisível

das minhas sensações.

Seria a alma dançando no corpo?

Seria o corpo da dançando na alma?

Seria Deus como causa 

de um tal arrebatamento indizível?

( - que nenhuma palavra poderá cingir.)

Jamais, nunca o meu pensamento

pôde pensar este acontecimento.

De súbito, aconteceu que a minha fé

foi uma fé nos mortos.

Não estava preparada para isso.

Nada na minha educação o pressupunha.

Mas quando tu morreste, querida amiga,

a minha fé estava lá.

Quando tu morreste, mãe do meu amor,

eu vi que os mortos viviam.

Tu dizias:

«Diz ao meu filho que estou bem.»

E o teu filho chorava.

Porque só eu te podia ouvir?

Fui apanhada também aí,

como uma expedição numa emboscada,

sem aviso, sem preparação,

mas não tive medo.

Como alguém que passa numa esquina

e é arrebatado por um bandido,

assim estava eu,

mas não tinha medo:

a minha tranquilidade era absoluta.

Os mortos apanharam-me de rompante.

Os mortos apanharam-me

e mudaram tudo o que eu sabia.

Não vos vi. Não vos ouvi.

Nem fantasmas, nem vozes,

como aparece nos livros.

Quem sabe o que são vozes mudas?

Eu sei.

São as vozes dos livros e são as vozes dos mortos.

São as vozes que ditam os textos na minha cabeça

e que aparecem sempre fora do tempo,

indevidas.

Presenças vivas incontornáveis.

Estavas por perto, minha amiga, e ainda estás.

Eras talvez demasiado jovem,

não soubeste como partir.

Como explicar?

Apareceram coisas muito parecidas

com o teu sentido de humor.

Por exemplo, um anúncio

num écran de Multibanco.

Aparecia uma coisa, sobre um chocolate,

em que o humor só vivia do contraste.

Ou seja, só vivia por ter aparecido

ali, naquele preciso momento.

Não era pela coisa em si.

Era pelo corte imprevisto

que operava no contexto

e que suscitava a tua presença, 

o teu sub-riso,

de uma maneira que era maior

do que qualquer imaginação.

Maior do que o sonho da tua presença.

Maior do que o desejo da tua presença.

Maior do que a saudade da tua presença.

Então, posso dizer:

a minha fé começou com os mortos.

Agora, quando me visitam nos sonhos,

sei que são eles - os meus mortos.

Porque os mortos são sempre de alguém.

Os mortos nunca são de ninguém.


XLIV

  

Também devo guardar alguns capítulos deste romance para uma outra ordem de acontecimentos: as descobertas inadvertidas, neste caso, descobertas de livros, cartas, rascunhos, poemas. É possível que muitos não liguem a esses papéis. Na maioria dos casos, principalmente sendo encontrados soltos, sem estarem em caixas, em arcas, atados em molhos ou em cadernos, devem passar despercebidos e ir para o lixo. E este foi um desses. Tenho a certeza que deve ter sido escrito pela Francisca, mas ela não o juntou ao livro das Orações a um Deus Desconhecido. Pelo tipo de escrita, pela sintaxe e pelo pensamento, parece ser mais tardio. Mas não tem data, nem assinatura. Não sei sequer se ela gostaria de o assinar como Françoise M., pela simples razão de não se querer mostrar nem identificar (razão que acho que devia ser sempre insuficiente para levar alguém a fazer uma corruptela do nome próprio). Estava debaixo do forro de uma gaveta, no seu quarto, e, na altura do seu desaparecimento, passou-nos desapercebido. É um estranho sítio para deixar um poema, mas não quero de modo nenhum comentá-lo, nem quero dizer agora o que sinto. Quero apenas deixar aqui o poema da Francisca.

 

Deus

Deus infinito e misterioso, nunca
totalmente compreensível, capturável, 
nas sensações, no pensamento:
tu és todo este cosmos que imagino
respirando em movimento estranho e inapreensível,
quase insensível, mas a cujo balanço
pertencemos nós, todos os grãos de poeira,
toda a poalha das estrelas e dos detritos
que vão sobrando da pedra dos planetas.
Gostava de ouvir essa canção de embalar
que devem fazer as estrelas girando,
gostava de sentir esse embalo que devem levar
em si as galáxias formado vias e rios,
e nós flutuando nelas, as partículas, os corpos ínfimos,
as areias das praias infinitas.
Sei agora que estás em toda a parte
mas que para ti não existe nem pequeno nem grande,
nem dentro nem fora, nem avesso nem direito,
nem por cima nem por baixo.
Como foi estranho e aventuroso esse caminho
que me levou a saber isto, com todas as fibras
da minha alma e do meu corpo,
com toda a certeza e toda a fé da minha carne
que sabe que existe porque sabe que existe;
e como é insignificante e incontável
(mas dramático, infinitamente dramático)
o pequeno episódio que me levou a essa fé,
chamemos-lhe... conclusão.
O que parece muito talvez seja realmente pouco,
muito pouco, quase nada mesmo,
e não existe o nosso antes e depois
mas existe um antes e depois que é caminho 
em que vamos como que andando em direcção a ti,
vamos estando mais perto por uma sucessão
por vezes tormentosa e outras quase invisível
de visões e sensações que atravessam o corpo
como ventos, cataclismos, revoluções,
doenças ou catástrofes
e essas são as nossas coisas,
coisas de homens e de bichos que nascem e morrem
de repente e sem grandes anúncios,
sem um aviso realmente esclarecido que nos prepare
de um modo conveniente a todos, 
quanto à chegada e quanto à partida.
Estou dentro de ti como tu dentro de mim,
somos a parte sem parte um do outro.
Dançamos, realmente dançamos
de um modo absurdo porque seria um quadro de Escher,
se o pintasse, e trocamos os pares e os passos
numa dança sem pista nem compasso
mas que ainda assim é música,
ainda assim é dança porque é corpo dentro de música,
é um corpo-música, realizando som...
Será certa música o que mais se parece
de um modo inteiro com Deus?
E o corpo dançando, entrando na música,
ardendo e destilando o seu suor, a sua água,
e como se na água entrasse, com ela se fundisse,
música-mar, música-rio, música-via láctea
(...)
Não há como falar do transe e do êxtase
em que de repente podemos ser tocados pelo esplendor,
pela simples luz de uma paisagem ou de uma visão do céu.
A luz também pode ser talvez uma das coisas
mais parecidas com Deus.
Pelo menos no impacto com que do nada
nos atinge, como um soco que nos atira ao chão.
Vê-se Deus no rosto das crianças e na alegria,
no espanto com que acabam de chegar.
Vê-se Deus no mesmo espanto que às vezes retorna
ao rosto dos velhos e aí se instala
(e parece um monumento, um dólmen, uma ruína).
Vê-se Deus em certa bondade imprevista, inimaginável,
e no amor não-humano dos filmes de Tarkovski
mas que existe também em qualquer coisa
que se despega das paredes, das paisagens mudas,
da água pingando, do vento passando pelas árvores,
das noites frias e desertas e do alcatrão deserto
das estradas sem gente.
Esse amor sente-se às vezes nas grandes solidões
e nos grandes silêncios e até nas grandes perplexidades
 e não é uma coisa doce nem terna e faz medo, faz muito medo:
é uma grande estranheza quase incomunicante 
como a grande solidão dos sonhos realizados de Solaris,
quase uma loucura e um grande abismo,
uma coisa de certo modo horrível,
até repulsiva.
É um amor que talvez para a grande maioria de nós,
pelo menos para mim, esteja por aprender e praticar,
mas quando de repente o descubro os meus olhos
ficam cheios de lágrimas e o meu coração
cheio de um grande arrependimento,
paradoxal e inexplicável.
Afinal, arrependo-me de quê?
Acho que me arrependo deste modo humano de amar,
quando de repente vislumbro outro, que é tão imenso.
É verdade que Jesus nos falou desse amor
e que as igrejas foram fazendo guerras dele.
E as palavras de Jesus havemos de as ouvir sempre
com grande emoção e dificuldade,
porque são uma revolução, mais do que uma salvação.
O amor é uma paleta de infinitos modos
e os mais intensos não são os mais óbvios:
onde está o livro que me fala destes amores?
Este livro ainda não existe.
Por vezes percebemos uma pequena coisa
quase impossível de descrever, uma contracurva da nossa alma,
e sentimos uma alegria imprevisível, totalmente infantil,
e um grande consolo e uma paz imprevista, paradoxal.
O que mais desejamos, a vida nos mostra,
é afinal o que menos esperamos.





XLIII




Nascemos.


Nascemos de repente, sem saber

o que é nascer.


Morremos de repente, também.

Mesmo que pareça aos poucos,

aos olhos dos outros... mas,

para cada um, certamente,

a morte será de repente.


Morremos sem saber o que é morrer.


A vida, do pico do infinito,

é-nos acontecida.


No meio do caos, 

quase um vórtice do caos,

quanta luta, quanta alegria,

quanta dor e quanta festa

para estar de pé.


Qual a dificuldade de pensar numa coisa maior,

se tudo é maior?


Qual a dificuldade de pensar numa força maior,

se tudo é maior?


Até em mim - mistério - 

tudo é maior do que eu.

Até em mim, cada batida do coração,

cada inspiração, cada revolução

das tripas me passa ao lado

e sem que eu saiba

do acontecido.


Deixa-te estar.

Deixa-te estar tranquila.


Tenta olhar para o esplendor,

tenta olhar para o absurdo

e para o esplendor

com a mesma graça

e com a mesma elegância.


Talvez uma das provas seja esta.

Acreditar, sim - no quê?...

Na alegria, no amor, na paz.

Na vida.

Acreditar teimosamente.

Acreditar sem ver.

Só sentindo.

Acreditar exactamente

como quem ama.








Dedicatória


 
 
Estes poemas foram dedicados à  Andreia Marques

que morreu quando ainda parecia uma menina.




Minha querida amiga,

tão leve e delicada,

tão graciosa e tão gentil

e em cuja companhia,

e com tão fino humor,

me divertia tanto,

quero agradecer-te

por te teres despedido de mim

e por me teres chamado

um dia antes de morreres.

Obrigada

 por te ter visto tão tranquila,

estendida no teu sofá,

diante do jardim

habitado por árvores

e por passarinhos.

E lembro-me que  tu disseste:

«Não acredito em nada,

mas já estou tranquila.

Os passarinhos

também vêm

e depois partem

e estão tranquilos.»

E lembro-me que te pedi:

«Posso abraçar-te?»

Obrigada hoje

por esse abraço.

Pois ainda

quero acreditar

que mesmo tendo tu

partido tão cedo desta terra,

ainda assim,

talvez um dia,

voltemos a encontrar-nos,

noutra esfera.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

XLII


É por tudo isto verdade

que estes limites não permitem

que te possa pedir muito,

mas apenas que venhas

como um amável carpinteiro

e com esse estranho amor

que aplaines esta madeira,

esta tábua caprichosa

que parece ser o meu espírito

até que ela fique tão lisa

que então te possas inscrever.

Dá-me força para viver esta vida,

esta vida e não outra, tal como é,

vida incompreensível, vida desconcertante,

vida por vezes tão difícil

que mais parece

uma série bem organizada de provas,

como num curso cuja finalidade

claramente não alcançamos

e que um dia esta imagem seja verdade,

esta imagem, porque as minhas palavras

não alcançam mais:

que um dia eu atravesse a minha morte

como se fosse possível seguir

por essa desconhecida via luminosa

sempre sempre sempre

de mãos dadas contigo,

Deus presente e desconhecido,

mais fino ainda que o ar,

mais imperceptível que os átomos,

tão extenso como os cosmos infinitos

e como a matéria de todos os corpos:

ó Deus do meu desejo eterno

e que é apenas eterno

porque está fora do tempo,

não tem princípio nem fim,

este desejo, não começou nem acabou

mas tu sabes que está num outro plano,
 
como a infância.
 


XLI


Do teu amor tenho um vislumbre

quando vejo a luminosa paisagem,

esta paisagem transparente,

suavemente colorida e musical,

com suas árvores radiantes

e o verde translúcido que canta,

de tão intenso que aparece,

e nela a vida vegetal, com essa força

que a faz erguer-se nos ares, explodindo

em pura luz, e a vida mineral,

cantando, com seus bocados de pedra

e partes de montanhas e colinas

e lotes de campos contrapostos

como blocos musicais, afirmação

vibrante e tão presente, apresentada,

de uma particular sinfonia, e ainda

essa construtiva e afadigada vida humana

que nas casinhas, na rede eléctrica,

nos sinais de trânsito e nas linhas fluentes

das estradas, se organiza e persevera,

e quando vejo esta paisagem, eu,

que em tempos supliquei que me apagasses

e nesta cor me dissolvesses, ou dissipasses,

do teu amor, quando vejo esta paisagem,

do teu amor agora tenho uma espécie

de vislumbre e sei que é verdade

que entre os infinitos seres que aparecem

também eu participo deste estranho equilíbrio,

também eu sou pedrinha no infinito mosaico,

porque nem sequer a mim própria inteiramente

me pertenço, e agora sei, finalmente sei

que é nesta espécie de amor que aconteço

e também que é neste estranho amor

que permaneço, tal como essa flor

que intacta permanece, entre o seu aparecimento

e o seu desaparecimento, no meio do turbilhão

e da turbulência que o próprio universo

tem e parece que move, e assim,

diante da paisagem, com os olhos a arder

e o coração a doer, desta emoção,

parece que é uma espécie de arrependimento

esta gratidão que sinto por ter,

sem explicação, este vislumbre,

e por estar, diante desta transparência,

por assim dizer, de olhos lavados,

e eu própria, de repente, despojada,

como se tivesse nascido

uma segunda vez e esta afinal

é que fosse a primeira vez. 

XL


Quem me dera, pois,

que sobre o meu coração,

desça tranquilamente

a tua coroa de paz,

e sempre que sinta medo,

que tu me enchas de coragem,

sempre que me sinta só,

que me dês a confiança,

sempre que me sinta fraca,

que me tragas a força,

e se alguma vez quiser negar a minha vida,

se isso um dia se repetir,

que me lembres este amor

em que certo tempo aconteci

e aquele em que hoje aconteço.

Porque parece estar condenado

aquele que te vira as costas,

confiando num simples homem,

e apenas na força humana.

Julgando-se grande,

é apenas um arbusto

plantado no deserto,

nessa terra seca e árida

onde ninguém pode habitar.

Porém quem se deixa guiar

é como uma árvore

que cresce à beira de um rio

e cujas folhas não murcham.

Dá o seu fruto na estação própria

e tudo o que produz é bom.

Nem no Verão

deixa de florescer

e mesmo sem chuva

não deixa de dar fruto.

XXXIX


Deus cuja bondade não consigo compreender,

porque os meus olhos nunca vêem a totalidade das coisas,

nem a vida depois da morte, nem a consolação do mártir,

e muito menos o tempo inteiro que ao drama restitui o seu sentido;

Deus cuja justiça não consigo julgar,

porque o sofrimento desta vida no mundo, não posso compreendê-lo,

e porque o meu julgamento, passo uma vida a revê-lo,

pois trata-se de uma coisa imperfeita;

Deus para quem uma certa inteligência

não passa de um estreito corredor,

para ti que não tens limites, criação, vida infinita infindável,

vida indizível, vida incontida, vida imprevista,

vida excessiva e no seu limite impensável,

enquanto eu nem sequer entendo

como é que a mais pequena das ervas

nasce e morre;

Deus, não me abandones,

mas mostra-te comigo em ti e não deixes de saber

quantos cabelos estão na minha cabeça.

Eu que fui tanto tempo a figueira sem fruto,

porque olhava e não via, tinha cabeça e não pensava,

ouvia sem compreender e o meu coração é que chorava,

Deus, não me abandones, mas protege-me

- para sempre - com o teu poder infinito.

XXXVIII


Um dia de manhã ao sair do carro

carregada de compras, parada de pé

sob a luz suave que se coava dos plátanos,

nessa transparência verde diáfano

que vibrava, intensa e alegre,

como um foco, senti de súbito

esta espécie de presença

que atravessa as coisas -

sem que se distinga delas,

esta força delicada e amorosa

que parece suster intactas

as várias vidas: gente, relva,

árvores, flores, casas, carros... 

e de repente... já não tinha nada para fazer.

Tirar a mala do carro, as compras...

Olhava para as copas luminosas e vibrantes

das múltiplas folhas transparentes

e pensava apenas,

com uma clareza que me abalava:

«Existo exactamente para ver-te

tal como te vejo, plátano.

Danças e vibras e falas-me,

como se fosses alguém

muito familiar e muito antigo,

e parece que me tocas,

sem que me abraces,

pelo contrário, plátano,

ambos nos expandimos,

como se irradiássemos,

e é possível, de facto é possível

que irradiemos realmente

alguma espécie de luz conjunta,

estando assim um entre o outro,

neste bocado de mundo.»

De súbito, sinto

com uma clareza absoluta

que existo para ver estas coisas

tal como as vejo: exactamente.

E é assim mesmo.

Existo para que o resto das coisas

me aconteçam assim no olhar,

tal como aparecem, com esta definição exacta...

esta precisão notável e visível.

Como se houvesse uma medalha

(que não pode andar solta),

e nós fôssemos o fio

(esse fio que a liga).

XXXVII


Houve quem perguntasse porquê, tendo sido nós

dotados desta aspiração a uma coisa maior,

desta fome de Deus, deste querer saber mais

do que a razão permite, tendo sido nós

ocupados por esta indagação do sentido

do que possa ser realmente bom, nas nossas vidas,

então porque é que a natureza nos privou

dessa inteira lucidez que seria a visão

de todos esses mundos, e da justiça e da bondade

deste deus a que o coração aspira, mas não alcança.

O mesmo homem tão verdadeiro, tão lúcido,

tão determinado e compassivo, que tal pergunta

enunciou, teve também a coragem de propor uma resposta,

perguntando, então, se continuássemos a ser humanos,

e com uma tal sabedoria, tal, que nem podemos

sequer imaginá-la, então, o que seríamos?

Seríamos de tal forma absolutamente obedientes,

desde o início das nossas vidas, mas não por esperança,

não por dever, não por experiência, não por rendição,

não por amor ao Deus da nossa mais íntima inspiração,

contudo, desconhecido, e aí então seríamos como fantoches,

meros mecanismos de um teatro em que todos nós

gesticularíamos tão perfeitamente bem, mas sem

que vida alguma, nessas perfeitas figuras,

fosse possível vislumbrar. Onde estaria então

esse outro dom, este intocável do inesperado

com que somos lançados neste mundo?...

Por tudo isto, e porque também não é provável que possa

realmente apertar-lhe as mãos nesse mundo dos mortos,

quero deixar aqui estas palavras, aqui,

neste mundo de vivos, como que gravadas

em lápide, porque enquanto as conservar, vivas,

dentro de mim e do meu coração, sei que é

absolutamente impossível que alguma vez volte

a sentir-me assim tão só, tal foi a companhia e a alegria

que senti, quando li que «deste modo, portanto,

também poderá ser exacto o que nos ensina

suficientemente o estudo da natureza e do homem,

isto é: que a sabedoria impenetrável,

por meio da qual existimos, não é menos digna

de veneração por aquilo que nos negou,

do que por aquilo que nos concedeu.»

XXXVI


Havia ainda, nessa grande casa

em que vivíamos, eu e Maria do Mar,

uma outra sala, geminada com a primeira,

em frente do terraço, com essas altas portas

envidraçadas que se abriam sobre os campos.

Chamávamos-lhe «Sala dos Nenúfares»,

por causa dessa curiosa pintura circular

que um certo bisavô, porventura excêntrico,

decidira fazer ao longo das paredes,

ocupando-as na totalidade, de tal forma

que os únicos móveis ali expostos,

no centro da sala, deixando livre tudo em volta,

eram dois velhos sofás e uns cadeirões de pele,

já muito gastos e estragados, e inclinados,

e uma cadeira de baloiço, em palhinha, sobre um tapete,

e nada mais, porque a intensidade dessa pintura

enchia todo o espaço de uma excessiva presença.

Tínhamos o hábito de ler, aí, nessa sala,

rodeadas por esse verde meio opaco

que era o das águas paradas de um lago,

aqui e ali, coberto de nenúfares,

essas flores aquáticas que com suave brancura

delicadamente iluminavam a penumbra,

e era tão bom e tão suave esse contraste entre o verde

das águas e o verde das folhas dos nenúfares

quase em forma de coração, sobre elas poisadas,

e era tão bom esse outro rosa das pequenas flores

que caíam, em cascata, das trepadeiras que se erguiam,

ao longo das paredes, enquanto líamos as duas,

em silêncio, confortavelmente estendidas nos sofás.

Do terraço vinha essa suave luminosidade

que nos libertava, e ao longe, sobre as amuradas,

podíamos ver essas brancas figuras humanas

que alguém esculpira em calcário,

agora incompletas, arruinadas pelos anos

que sucessivamente tinham passado,

sem que houvesse um trabalho de restauro.

Numa faltava uma cabeça, noutra um braço,

noutra ainda uma mão, ou um pé,

mas a delicadeza dos suaves drapejados,

modelando os corpos, não se tinha perdido,

nem se perdera essa silenciosa majestade,

essa comovente dignidade da vida que se ergue,

tão frágil, e tão desafiante, no meio do movimento

da matéria que parece um turbilhão, e nessa altura,

enquanto líamos, essas figuras humanas sobre os muros

do que nos falavam era precisamente desta

estranha e curiosa dupla condição

que é uma linha de tensão que persiste

entre erguer-se e estar arruinado.

XXXV


É verdade que a partir daí passei a olhar para as árvores

como exemplos dos quais podia retirar uma lição,

ou uma inspiração. Plátanos, ciprestes, oliveiras,

pinheiros, aurocárias, choupos, cedros, eucaliptos...

Contemplei-os durante horas infinitas,

como coisas de Deus, coisas que talvez pudesse imitar.

Será que existe alguma forma de vida mais pacífica do que essa,

a da natureza que tão suave e imperceptível floresce?

Elas nem sequer perturbam coisa nenhuma,

quanto mais diminuem ou causam dano a algum ser vivo.

Erguem-se no ar enquanto o tronco e as raízes as sustentam

e são exactamente como um hino, uma acção de graças.

Expandem-se em ramos, folhas e frutos e fluem

silenciosas e discretas com as estações,

como se dançassem, e às vezes fazem flores

e dão frutos coloridos que são deliciosos e doces.

Nós os homens plantamo-las nas margens das ruas

para que nos façam companhia e as cidades

não se transformem em labirintos opressivos de betão,

por isso, pergunto, como pode um simples ser humano

ser assim tão generoso e tão bom?

XXXIV

 
Certa tarde li num livro sobre casos de pessoas

que conversavam com Deus, sem que ele falasse

com elas aos gritos, como às vezes acontece na Bíblia,

e sem que dele se pudesse sequer dizer que tinha uma voz,

mas essas pessoas faziam perguntas, pediam orientação

e ajuda, esperavam pela resposta e a sua resposta,

no momento oportuno, acabava por chegar.

Na altura considerei isto uma coisa interessante

e decidi experimentar, pensando: «Porque não?...»

E então o que fiz foi unir as mãos, com toda a seriedade,

fechar os olhos, baixar a cabeça e concentrar-me,

e como sempre perguntei: «Ouves-me, Deus?...»

Nunca tinha feito nada de parecido, mas disse:

«Deus, vou fazer-te uma pergunta

e vou esperar que me respondas. Vou tentar não pensar.

Vou ficar em silêncio e esperar.»

E enchi-me de coragem e perguntei:

«Diz-me, Deus, qual é o meu papel?...»

E deixei-me estar, sem pensar em nada,

completamente quieta, até que comecei a rir.

Era um riso que vinha do nada, como quem diz:

«Realmente, precisas de estar sempre a olhar para o chão,

para saber onde pões os pés?... Precisas de saber de antemão

como é o caminho todo, para começar a percorrê-lo?...

Ou precisas de um completo plano de acção para fazer

simplesmente o que está à tua frente para ser feito?...

Tu que precisas de reduzir os grandes números a percentagens,

para teres qualquer coisa de perceptível na imaginação,

já que um bilião de coisas deixa o teu sistema em curto circuito,

quanto mais o infinito, queres uma coisa tão grande como esta,

conhecer uma vida, quando da tua própria, grande parte já esqueceste?...»

Aliviada, percebi que a minha pergunta era absurda, e de novo perguntei:

«Como é que sei que estou a fazer o que está certo?...»

Porque não há listas de virtudes, nem manuais de boas maneiras,

nem aprovações ou elogios, nem códigos, nem legalidade que legitime

certas categorias de crimes, que apazigúem a minha cabeça

e o meu coração, relativamente às minhas dúvidas.

Talvez apenas Kant, mas faculta-me um difícil modelo,

uma lei muito difícil, quando levada até às últimas

consequências, e não uma inspiração.

Fiquei completamente em silêncio, à espera,

e esperei bastante tempo, imóvel,

sem que surgisse rigorosamente nada no meu pensamento.

«Não tens nada para me dizer?...» Foi o que pensei, por um segundo.

«Deus, como é que sei que estou a fazer o que está certo?...»

E então surgiu uma coisa no meu espírito, surpreendente,

totalmente surpreendente, completamente inesperada,

e essa coisa foi: «Olha para uma árvore e faz como ela faz.»

Nesse momento confesso que não pude evitar

sentir-me vagamente irritada,

porque aquilo era tão inesperado, e pensei:

«Olho para uma árvore e faço como ela faz?!...

Mas que raio de resposta!... O que é que uma árvore faz?...»

A nova resposta, porém, foi rápida como um tiro,

e deixou-me siderada, completamente parada,

como se tivesse sido atingida, porque já nem sequer estava

a perguntar, aquela pergunta já não era uma pergunta,

era uma reclamação, porque estava a começar a ficar zangada,

estava a ficar sem paciência, por causa deste meu feitio

indomável e caprichoso, e a resposta era,

a resposta simplesmente era:

«Floresce.»



XXXIII


De Deus não sei nada

a não ser as árvores

que se levantam desta terra

contra o fundo branco e azul

que os meus olhos fazem

do espaço celeste.
 

De Deus... de Deus afinal

não sei mesmo nada

a não ser esta vida

e na minha imaginação

as esferas gigantes

que no espaço imenso -

suspensas

e numa incrível suavidade

dançam, como se cantassem.
 

E é por isto que só posso

dirigir-me a ti com palavras

que me sejam acessíveis,

porque eu não «sei»

uma árvore, nem sequer

«sei» uma vida,

e é um discurso infantil,

este, com que te falo,

mas são as coisas que entendo.
 

É certo quando falo

do teu amor

que não sei precisamente

do que falo.


E mesmo quando falo

da tua compaixão

é certo que sei só

o que sinto na pele,

no coração, este,

por isso, olha

para estas palavras

como quem vê flores

espalhadas em campos,

olha para elas

como quem vê frutos

pendurados em ramos,

e não deixes de as ver

como coisas tuas.
 

São só imperfeitas

quando comparadas

com o sonho do que eu

desejaria alcançar,

são apenas imperfeitas

quando esgrimidas

pela minha cabeça.
 

Aceita-as, pois,

como se fossem apenas

uma parte dessa outra

sinfonia dos gestos,

os gestos mais simples,

os mais repetidos,

esses gestos

que compomos

ao longo do dia,

como quem compõe

uma acção de graças,

aceita-as apenas

como uma parte

dessa outra

coreografia,

Deus.

XXXII


Erguia-se mesmo em frente

do terraço principal,

debaixo desses canteiros

onde florescem as hortênsias,

uma fonte muito branca

toda feita de calcário,

colocada com graça

entre a gravilha da estrada,

diante da escada.

Esta fonte era composta

por duas taças sobrepostas:

a primeira, maior e mais larga,

assentava no chão

e era, no seu interior,

muito clara e cintilante,

ondulada como uma concha,

cheia de água transparente,

enquanto a segunda, mais pequena,

repousava, como uma pétala,

no topo de uma delicada coluna,

fazendo cair em cascata,

suave e musicalmente,

nova água sobre a primeira.

Brilhavam no fundo da água

pequenas moedinhas douradas,

por causa dessa história infantil,

mas sábia, que ensina

que existe mais esperança

na alegria de um breve desejo

precisamente nesse momento

em que se abre mão dele.
 


XXXI




Foi também num desses dias em que tentava praticar,
com boa vontade, é certo, mas com a maior inexperiência,
algumas destas virtudes que me eram totalmente estranhas,
e em particular esforçava-me, sem qualquer êxito,
por praticar um desligamento de certos afectos,
medos e preocupações que me intoxicavam,
(uma estranha espécie de amor, que me punha doente),
foi num desses dias que me apareceu no espírito,
subitamente e sem esforço, nem premeditação,
a imagem da mãe de Moisés colocando no Nilo
o seu bebé, dentro do cestinho betumado,
na esperança que alguém o recolhesse, mas entregando-se,
nesse gesto, à própria sorte, e lembro-me então de pensar
se haveria algum acto de fé que implicasse
maior coragem do que esse, o de colocar uma criança
totalmente indefesa, dessa maneira, nas mãos de Deus.
Na minha imaginação, porém, eu não via um rio,
mas sim uma infinita via láctea, luminosa,
muito branca e ondulada, sem princípio nem fim,
pois não via onde começasse, nem onde terminasse,
difusa e flutuante, e comecei por colocar aí uma pessoa,
uma certa pessoa que em particular me doía,
e via o seu fino corpo, magro e esguio, e enrolado,
partindo nessa via de luz, e então pensava:
«Estás a ver, Deus?... Está nas tuas mãos.»
Só que ao fim de algumas vezes em que o fiz, porém,
sobreveio um tal alívio, uma tal leveza, e uma tal liberdade
que o que então quis colocar nesse rio de luz foi
o meu próprio coração, que era o que mais me doía,
mas o que então via, com nitidez cortante e gritante,
era um coração muito encarnado, como numa dessas imagens
de anatomia renascentista, com suas veias e artérias cortadas
e separado do corpo, perfeitamente individualizado,
um coração vivo e real, verdadeiro, com um vermelho
que quase com violência se destacava dessa fluidez
muito branca que era a via láctea da minha imaginação,
e eu dizia: «Estás a ver, Deus?... É o meu coração.
Leva-o contigo, por favor. Segura-o nas tuas mãos.»
E entregava-lhe esse ritmo que batia, essa aspiração,
essa respiração e essa dor que doía,
e via-o a deslizar nesse rio de luz
que fluía e lentamente,
muito lentamente,
e surpreendentemente,
fiquei livre.