XXVI


Certa noite, vinha de carro, a guiar,

e parei num sinal vermelho.

De um lado estava o mar

com os navios de carga iluminados

como diademas de brilhantes

à entrada do rio, parados

naquela escuridão transparente,

que sempre me fascina e desafia,

e do outro lado havia uma rua

iluminada por postes de luz branca,

levemente inclinada e que subia,

ladeada de pequenas casas,

e no início dessa rua,

uma bomba de gasolina

já um pouco decadente

no meio do alcatrão e do cimento

e com um velho néon de cores

transparentes e ácidas.

Era para esse lado que olhava,

para a bomba de gasolina

e para as linhas dançantes

que compunham as luzes brancas

e ácidas dos paralelepípedos

que eram os néons, e para as letras

que compunham as palavras

e que estavam iluminadas,

meros logotipos e anúncios

que não tinham nada de especial,

pelo contrário, poderia até

dizer-se que eram feios,

de um certo ponto de vista,

mas de repente fui ali atingida

por uma emoção peculiar

e tão forte que o que queria

era ficar para sempre ali parada

e que o sinal vermelho

já não mudasse para verde.

«Deus, afinal,

não me leves tão depressa,

porque não quero despedir-me ainda,

nem daqui, nem deste mundo.»

Pois era como se aquela emoção

tivesse feito de mim um cristal,

e queria ficar sempre ali,

imóvel, parada,

naquele colorido que vibrava

e dançava e parecia que cantava,

essa espécie peculiar de alegria,

transparente e vibrante,

mas estava deveras intrigada,

intrigada porque já tinha

ali passado muitas vezes,

sem nunca sentir nada

de semelhante diante

desse quadro imperceptível.

«De certeza não serei

apenas eu, cruzada neste ângulo,

com este bocado de mundo...

Não sou só eu, minúscula,

a ver no carro parada

uma perspectiva insignificante.»

E tudo o que me ocorria pensar,

como se  tocasse na margem

de algo mais, tocando

com a ponta dos dedos,

mas sem poder ir mais além,

da mesma forma que alguém,

no limite do corpo se esticando,

pratica um movimento de torção

e quer, mas não consegue,

dobrar-se ainda mais, tudo

o que me ocorria pensar era:

«Será que és tu, Deus,

quem espreita agora,

agora mesmo,

pelos meus olhos e sente

com o meu coração?...»

XXV


Sobre o corpo humano e o seu destino,

há quem pense que é insensata a questão sobre com que corpo

é que iremos atravessar a nossa morte, se com este,

que temos agora, se com aquele que tivemos em crianças,

se com o outro que teremos em velhos, um dia,

se com o corpo moribundo, se com o corpo enterrado,

se com o corpo corrompido por essas fraquezas e doenças

a que tenhamos sucumbido, em vida, ou esse corpo virtual,

o corpo que nunca chegamos a ter, neste mundo, mas que teremos,

eventualmente, através dos intervalos que unem este mundo a outros mundos

e que nem sequer vislumbramos, aí sim,

o corpo sem nenhuma mutilação, porventura esse outro corpo,

o glorioso, esse que possa ser o corpo

de uma pura e viva, completa e absoluta actividade criativa.

Há quem pense que o próprio corpo desta vida

tal como a vivemos neste mundo é como a semente

de outra coisa que está por vir, igual a esses grãos

de plantas vivas, que se desfazem e desaparecem,

nesta terra, cada um deles, para dar lugar

ao seu particular florescimento, sejam grãos de trigo

ou sementes de outra espécie, e que assim

também estes corpos é necessário que sejam enterrados

na terra, como grãos, para que então possam florescer,

depois da morte, para a vida eterna. «Nem todos morreremos.»

É o que dizem. «Mas todos havemos de ser transformados.»

E eu pergunto: esta íntima aspiração da vida fluente

sem ser interrompida, quem, com absoluta sinceridade,

poderá afirmar que alguma vez não a tenha tido,

e esta visão do seu corpo como um abismo,

como uma espiral de corrupção e redenção, quem,

que alguma vez tenha começado a pensar, não a pensou?

Também para mim esta habitação na terra

se assemelha a uma dessas tendas do deserto,

uma dessas amplas e sumptuosas tendas de príncipes

persas do século XII, forradas de veludos e tapetes,

tingidas de púrpura e bordadas de seda, esta habitação

assemelha-se a essa tenda que se vai desfiando e cujas paredes

ondulam e tremem com o vento, à sombra

de uma duna no deserto, ou à beira de um oásis.

E nem sequer posso negar que já tenha tocado

essa íntima aspiração de querer estar dentro

de uma outra casa, de um outro corpo, mais distante,

ou mais próximo, e em que não me sentisse «assim tão despida»,

e mesmo sendo capaz de amar esta pele, com a sua peculiar maciez,

e deslize igualmente nela, como deslizo numa paisagem,

também não posso negar que conheço bem

esse sonho de suspirar por um outro lugar em que tudo

o que é mais mortal e corruptível, como a carne,

não deixe de ser eternamente absorvido pela vida, nem de fluir.

Porque às vezes nesta vida este corpo também se liberta,

com uma espécie de abrupto choque ou violência,

e é como se os panos dessa tenda, sob os golpes

irregulares mas implacáveis de uma inesperada intempérie,

se soltassem dos seus nós, e ondulassem e batessem,

suspensos das estacas, em sintonia com as ondas da areia

e com as linhas da paisagem, e em comunhão com elas,

em sintonia com o ar e com o vento, com as nuvens que deslizam,

com as águas que correm e com a luz que se extingue,

em sintonia até com o excesso da própria tempestade

e, neste caso, violência e suavidade deixam de diferir, sequer,

porque neste movimento é como se pele e atmosfera

formassem, já não uma oposição, mas sim um plano.

Sinto-me então como se fosse a própria onda que atravessa

esse tecido e faz dele um mar, qualquer coisa

tão perfeitamente livre e fluída que até o suave limite

dessa bainha terminal passa por ser uma dor que me trava e cancela,

como um obstáculo que se sofre e que já projecta, violento,

uma outra onda de choque, uma outra dor que me diz:

«Quando te libertarás, enfim, das tuas estacas, ó tenda suave?...

Quando é que por fim te desfiarás todo, macio veludo,

e te desfarás em pó, invisível, entre os grãos de areia?...

E quando chegará enfim esse momento em que te desprenderás, 

liberta finalmente, finalmente livre, destes próprios ossos,

que são como estacas, finas e nuas, plantadas no deserto?...»


XXIV


Em certos momentos, confesso -

por dentro é como uma fábrica

em que as máquinas aterradoras

se movem com vida própria

e são demasiado grandes e perigosas,

na sua força e complexidade,

para a dimensão que realmente tenho,

neste mundo.

 

Por vezes até parece

que sou apenas, suave,

essa alegre e simples borboleta

que por acaso aí tenha entrado,

esvoaçando entre a percussão e o triturar

desse hipnótico e espantoso

movimento rítmico - e por aí dançando,

em leve e peculiar sintonia

com toda essa infernal maquinaria,

se eleva e suspende com o trinado

do seu errático movimento.

 

Noutros momentos, porém, quase negros

e de uma voragem terrível, é verdade

que sinto ser a própria carne

que é esmagada pelo avanço imparável

dessa intensidade incompreensível -

e é como se no interior desse edifício

se deslocasse um buraco negro,

uma vertigem, ou um vórtice

que fosse a própria aresta do caos.

 

Nestes momentos, confesso

que ainda sinto, súbita,

aquela antiga necessidade de morrer,

e também me questiono, pois,

se até um instrumento musical,

como um piano, protejo da luz do sol

e das diferenças de temperatura,

para que a madeira não estale

e a afinação da cordas não se ressinta,

como conseguirei, afinal, tão frágil

e tão vulnerável, aparentemente,

pelo menos, feita de nervos, de pele,

de ossos, de carne e de sangue,

como conseguirei afinal resistir ou suportar

o excesso desta espécie de violência,

ou então encontrar essa elasticidade,

essa peculiar flexibilidade para me deslocar

entre estes limites, e mesmo assim

permanecer inteira?...

 

A única coisa

que se afigura como certa

é que não poderá ser esta matéria,

esta, precisamente a que tenho,

mas por força maior terei de encontrar

a maneira de me fazer de outra coisa,

de uma outra consistência, ou maleabilidade,

na qual este movimento, ou espécie de violência,

ao invés de destruir, possa fluir.

XXIII


Porque há uma coisa em mim

que sabe exactamente

o que é ser pássaro

e voar, e voa com ele

quando o vê, tão livre

e tão leve, no azul brilhante

do céu que os dois envolve.

Ele flui com as asas abertas

em linhas invisíveis

de tensão e suspensão

e qualquer coisa em mim

sabe exactamente,

sem saber como,

o que é ganhar balanço

nesse rápido bater de asas,

nesse vivo impulso,

e depois deixar-se fluir

numa linha contínua,

que é por si própria,

na sua leveza absoluta,

uma espécie de infinito,

talvez uma inclassificável

participação de outra esfera,

como qualquer coisa

que está à beira de outra,

uma praia, ou uma franja,

voando no vento,

e a verdade, a verdade

é que essa coisa em mim

sabe perfeitamente e sem

qualquer espécie de dúvida

a precisa e peculiar diferença

que existe entre a intensidade

do batimento rítmico

com que o pássaro

se eleva nos ares,

em súbito esforço,

e essa tensão suave,

esse contínuo sensual

e diria: realmente infinito -

que é estar suspensa

numa linha de absoluta fluição.

Em sonhos verdadeiros,

enquanto durmo, no meu sono

também já aconteceu

que as pontas dos meus pés

se separassem

do chão e eu também

voei e sei o que isso é,

sem saber como

nem porquê.

XXII


Que bom seria se pudesse dizer, da minha alma,

que a sua conduta fosse irrepreensível,

como se agora mesmo ela nascera,

e livre pudesse então partir, imaculada,

nesse luminoso cortejo dos bem aventurados,

que em redor das estrelas, como descreve Platão,

viajam felizes para o topo do céu,

essa cristalina morada onde se diz que as cores

são mais brilhantes e variadas, mas confesso:

não consigo sequer pensar

que seja verdade que nós humanos

estejamos para esse mundo impensável

como os peixes quando põem a cabeça fora de água,

e olham para a terra maravilhosa que nós pisamos,

lamentando esse mar cheio de sal e saibro

que é o abismo de toda a escuridão.

E mesmo que voltasse a esta vida

carregada com um novo e inesperado

quinhão de dor, mesmo assim desejaria,

ainda assim, fazer parte deste esplendor,

porque ser uma pessoa, abrir os olhos e ver

tantas maravilhas e luminosas, irisadas cores,

o céu muito azul e uniforme, ao mesmo tempo liso e fundo,

como um ecrã rasgado no infinito,

e o verde puro e transparente

que explode em todo o lado, brilhante e variado,

porque ser uma pessoa, ter corpo e concentração,

poder sentir e pensar, e ter dois olhos

que captam a luz, ouvidos, boca, mãos e coração,

e girar em volta e ver, erguida sobre os pés,

disso também se pode dizer, é verdade,

que seja a bem-aventurança.

E por isso quereria sempre chegar aqui

e participar, fazer qualquer coisa, nem sei bem o quê,

talvez cultivar um jardim, talvez erguer uma casa,

tocar ou dançar, sem ninguém a olhar,

debaixo de uma árvore, não sei,

pois teria de me inspirar, e de me abandonar,

pôr-me no meu caminho e deixar-me fluir

para conseguir essa proeza

de poder realizar qualquer coisa de bom

e assim conseguir ficar

em harmonia com o resto.

XXI


Tal como Jonas, esse Profeta

que, quando ouviu a voz do Senhor,

aterrado, fugiu  e acabou

dentro de uma baleia,

se alguma vez tu, Deus,

tivesses falado comigo

e nesse momento a tua voz

se ouvisse com toda a clareza,

nesse momento é possível

que tivesse enlouquecido

de uma forma muito grave,

pelo menos durante alguns dias.

No meu caso, porém,

se Deus me falasse

uma segunda e terceira vez,

o mais certo seria

perder para sempre o juízo,

mas Jonas ficou dentro do peixe

como se estivesse num sepulcro,

mergulhado na escuridão,

com algas enroladas na cabeça,

durante três dias e três noites,

angustiado e a rezar.

Por isso, a história diz

que Deus fez com que o peixe

fosse vomitar Jonas

em terreno bem firme

e que tornou a falar-lhe,

dizendo: «Anda!»

E dessa vez Jonas

ouviu e obedeceu,

partindo a pé para anunciar

a destruição de Nínive.

Porém os habitantes da cidade,

quando ouviram a mensagem de Jonas,

os habitantes de Nínive

arrependeram-se tanto,

que Deus decidiu não os castigar

como antes tinha pensado,

e Jonas partiu para o deserto

à espera de morrer,

revoltado contra um Deus

que mudava de ideias

conforme

os sentimentos dos homens.

Deus então

fez crescer uma planta

ao lado de Jonas,

para lhe dar sombra

e confortar no seu desgosto,

mas Jonas, porém,

não percebeu

o que Deus lhe queria dizer

e por isso, na manhã seguinte,

Deus fez com que um bicho

fosse roer a planta

e então ela secou.

Jonas dizia, muito zangado:

«É melhor para mim morrer

do que viver assim!...»

Mas Deus respondeu a Jonas:

«Achas que tens razão

para te irritares assim

por causa de uma simples planta?...»

Mesmo uma planta

não sendo uma cidade,

Jonas respondeu:

«Acho que tenho razão

e estou profundamente irritado.»

Por isso, Deus pôde explicar-lhe,

que se Jonas tinha compaixão

pela vida de uma simples planta,

mais compaixão teria Deus

pelos milhares de vidas da cidade.

Jonas teve assim

oportunidade de compreender

aquilo que o seu espírito

de outra forma

não alcançaria.

No entanto,

por causa desta história,

e porque nem todos

temos o espírito e a força

de um profeta,

penso muitas vezes

que é preferível que Deus

de forma alguma nos fale,

ou então pareça apenas

que nos fale indirectamente,

através de acontecimentos e sinais

e sem nenhum tipo de explicação. 

XX


Porque chegou um dado momento

em que o meu corpo

e a minha cabeça

eram como um jardim

ao qual tivesse lançado fogo.

Já não suportava andar por ali,

por esses sinuosos caminhos

que compulsivamente repetia,

em infernos circulares e regulares,

sem saber já o que fazer,

sem uma proposta de alteração.

Isso poderia até ser interessante,

mas certas dores, em particular,

fizeram com que pegasse fogo a tudo,

um gesto curiosamente insano, mas,

ainda assim, paradoxalmente pacífico.

Enquanto tudo ardia,

nesse suave desastre,

simplesmente dormia, não sei,

ou talvez desmaiasse, não sei,

pois não sentia, e era como se apagasse

um estranho vigilante interior

e então dormisse de olhos abertos,

petrificada, diante da própria sombra

opaca, majestosa, intocável,

mas não sei, realmente não sei,

pois a verdade é que inconsciente caía,

e pensava que dormia,

mas adormecia

tão de repente que caía

e era como se o corpo caísse

a pique dentro do próprio corpo,

e a difícil consciência, felizmente,

finalmente, hedonisticamente anulada.

Por breves momentos, o que conseguia,

antes de me apagar, e sem qualquer espécie

de reflexão, era sobrevoar-me dentro do corpo,

como se fosse um sopro atravessando

em alta velocidade uma planície,

ou como se este corpo fosse um plano

tão livre e desimpedido que podia fluir

através dele como linha de luz,

um traço contínuo sem qualquer

forma ou espécie de interrupção,

uma pura linha de luz que viajasse,

translúcida e constante, pelo vazio,

e em troca da breve intensidade

dessa específica forma de prazer,

em troca desse calor, desse abandono,

em troca dessa libertação,

chegava a pensar, é verdade,

que talvez não fosse importante,

sequer, arriscar por acidente morrer.

Ainda hoje não compreendo o milagre

que veio erguer-me sobre os dois pés

nessa paisagem carbonizada, desolada,

nem que estranha compaixão, tão diversa,

terá descido em mim, por mim, dentro de mim,

e despertado no fundo de mim,

compassivamente,

uma estranha lucidez

que então me lavava os olhos.

Não compreendo o movimento

que então me acompanhou

pelos escombros dessas ruínas,

nem a força, nem a coragem,

nem sequer essa humana capacidade de união

de tantos companheiros de infortúnio.

Continuo incapaz de compreender

como é que de tantas cinzas

a natureza renasce, nem essa força subterrânea

com que a vida explode à superfície, surpreendente,

e é com espanto que vejo, atónita e perplexa,

sentindo-me muito alegre e pequenina,

vagamente incrédula, mas cheia de esperança,

estas novas flores desconhecidas,

estes bocadinhos de verde luminoso,

a despontar timidamente no deserto...

... que alegria!...

XIX

 

Foi preciso que a morte me tocasse
 
 
para que então começasse a aprender,
 
 
por um estranho amor a esta vida,
 
 
um pouco do significado
 
 
do sentimento de humildade.
 
 
Foi preciso descer muito fundo
 
 
nesse plano gelado do desespero,
 
 
nessa solidão insondável,
 
 
para que pudesse retirar
 
 
desta existência
 
 
alguma espécie de evidência.
 
 
Foi preciso ficar arrasada
 
 
durante muitas, muitas horas,
 
 
e pela tua compaixão,
 
 
que não me deixaste morrer,
 
 
regressar dolorosamente à luz,
 
 
para perceber que a maior dor
 
 
é lutar contra ti
 
 
e não deixar a vida fluir.
 
 
E foi preciso que isto se repetisse
 
 
muitas, muitas vezes,
 
 
para conseguir perceber
 
 
que sozinha não era nada
 
 
e que só contigo,
 
 
contigo, por ti e em ti,
 
 
podia viver.


XVIII


É verdade que passei muito tempo,

muitas horas, muitos dias, Deus,

a pensar em ti e a negar-te,

não só porque não conseguia pensar-te,

mas também quando reflectia neste mundo

e na dor absurda, incompreensível,

que de um golpe derruba tantos seres inocentes,

hordas de gente absurda, despida ou endomingada,

mortos-vivos que às cegas caminham no esplendor,

estranha raça de humanos, com seus destroços e tiranos,

suas correntes absurdas de vaidades e abjecções,

e sem perceber, é verdade, sem perceber, nem sequer reparava

que assim agia, insana, como alguém que pensasse

que um tão pobre juízo moral, simplesmente humano,

e tão pequeno, dentro dos seus limites

pudesse julgar semelhante grandeza, tu, poder infinito

de quem estaria mais certo dizer-se, ainda

que teoricamente possa estar tudo errado,

como naquele salmo de David,

que assentaste a terra em colunas bem firmes,

para que ela se mantivesse segura, e que a cobriste

com o mar profundo, tapando as montanhas,

e que enviaste a água pura das nascentes,

para os rios brilhantes que correm nos vales,

essa água de que bebem os homens e os animais,

e em que matam a sede os veados dos montes,

e em cujas margens fazem ninho as aves do céu,

chilreando, no meio da folhagem, muito leves.

 

Porque, se nem mesmo de uma banal trave de aço,

que hoje sabemos formada por minúsculos e invisíveis

corpos em movimento, que giram em torno uns dos outros

numa velocidade incrível e segundo leis precisas,

se nem mesmo desta coisa simples podemos afirmar

com completa segurança que a conhecemos,

quanto mais deste universo que a luz estelar atravessa,

veloz, poderei eu imaginar a dimensão, o sentido,

o princípio e o fim, e quanto mais ainda quanto à justiça

do destino invisível que sofre a vida e o corpo

de tantos seres vivos que persistem, como a poderei julgar?

Se parar para reflectir na dimensão desta terra imensa

que em torno do sol incandescente gira, bem rápida,

sem que tudo o que está nela se desequilibre ou caia no espaço,

no meio de tantas galáxias, muito brancas e brilhantes,

que entre si se entrelaçam, girando, com suas estrelas,

também morrendo e nascendo, como seres vivos,

arremessando e devorando os planetas,

se reflectir na dimensão desta terra multicolor,

que no meio das infinitas nebulosas não chega sequer

a ser um ínfimo grão de pó, sendo para mim incompleta,

e impossível de conhecer, como poderei então continuar

a querer pensar que em tudo isto não te encontras tu,

força impensável e poderosa, sem a qual esta vida

simplesmente provém do nada, nada significa,

nada justifica e a nada conduz?

XVII


E nessa altura, também pensava:

«Se a minha fé fosse a de um santo, jamais seria infeliz.

Aceitaria tudo como sendo bom, um passo antes de outro passo,

degrau antes de degrau, passagem absolutamente necessária.

Aceitaria a totalidade invisível do mundo e da vida

como a perfeição de uma visão última que não a minha,

o destino justificado de um sentido para mim inalcançável,

e então aceitaria a própria dor como a natureza incontornável de um limite,

o limite humano de um parco poder de observação,

de uma demasiado estreita compreensão, Deus.»

E pensava: «Quando é que terei essa resignação, essa serenidade?...

Não é verdade que também Cristo gritou na cruz, no meio do sofrimento:

“Pai!... Porque me abandonaste?...”

Se a minha fé fosse sempre a que tivesse

quando tenho a emoção de ver um malmequer

e penso que tu, meu deus, é que o formaste,

um malmequer ou um bebé ou qualquer coisa viva

que, de tão bela, o coração não a suporta,

mas desfaz-se, apaixonado, na emoção de a amar,

então não seria nunca infeliz.

Mas Pedro também se afundava nas águas,

diante de Cristo, que caminhava sobre as águas,

e ele via, e eu não vi,

e então, como posso eu, 

não vacilar?

Se é verdade que te encarnaste, Deus,

então conheces esta fraqueza, pois,

como caminharemos altivos em direcção à dor?

Se tu fosses uma perfeita evidência!...

Ah!... Então que maravilha!...

Por vezes é verdade que avançamos

tão trôpegos como bêbados,

ou nem sequer avançamos, é verdade,

cambaleamos, ou então recuamos,

ou então caímos, tanto é o nosso medo,

mas vê bem, vê bem, nós surgimos

em puras crianças e inocentes nascemos crianças,

nascemos tão leves e felizes e nessa altura

os nossos rostos são lisos e alegres,

mas num instante nos perdemos, e de dor em dor,

de perda em perda também outra e outra vez nos perdemos,

e por isso, por isso esta fala é um gaguejar,

o desejo de uma visão que me falasse de tudo o que não sei,

e que nessa altura caminhasse na pura beleza imaculada

que vejo quando vejo este mundo em pura cor,

sem que pense nele e sem que viva nele

a dor da desilusão. Se nos desses apenas aquilo que vemos

quando a beleza nos ultrapassa, e ninguém nos julgasse,

porque tudo o resto, tudo o resto

é extremamente difícil de pensar e a nossa humanidade

não se compadece desse desastre, então, meu Deus,

então nesse momento talvez

uma estranha felicidade me coroasse.»

 

E era isto o que pensava, nessa altura.

XVI


Nesse tempo também tinha tanto medo

que, embora não chorasse, era como se chorasse.

Não sabia o que fazer com esse medo, apenas sofrê-lo

como uma paixão, na casa infinita, na casa abandonada,

na casa onde os nossos quartos eram clareiras no meio do pó,

pois tinha medo que toda a dor me invadisse como a água

das barragens quando se abrem as comportas,

medo de não conseguir sequer respirar, nesse turbilhão,

e um medo absurdo de todas as coisas que se arruinavam,

dos vidros que se partiam, dos degraus que desapareciam,

dos buracos nas tábuas e das telhas que voavam,

e nessa altura era tão intenso esse medo de sentir

o que quer que fosse que estivesse dentro de mim

que cheguei a pensar, confesso, que ainda o melhor

seria a própria morte, quem sabe,

transformar-me em jardim.

XV


É verdade que as pessoas do povo de Israel

choravam com medo de perder o olho direito

em sinal de submissão ao Rei dos Amonitas.

E que essas pessoas também tremiam de medo

diante de Saul, que os chamava para a guerra,

ameaçando desfazer os bois em bocados.

É verdade que estavam cheias de terror

quando o Profeta Samuel pediu a Deus

para mandar chuva e trovões na estação seca

e logo imediatamente choveu e trovejou.

E é verdade que quando foram para a guerra,

os homens estavam cheios de medo.

Viam-se em perigo e apertados por todos os lados,

de tal modo que se escondiam em grutas e em buracos,

entre as rochas, em esconderijos e cisternas.

Esses homens também estavam fracos

e cheios de fome e mesmo assim não tocavam no mel

que escorria das árvores, enquanto atravessavam

a floresta, pois estavam cheios de medo

do Rei que os amaldiçoara, dizendo:

«Maldito seja quem comer qualquer alimento

antes de eu me vingar dos meus inimigos.»

E assim esses homens lutavam esfomeados,

tal como bichos.

XIV


Bem sei, bem sei

que existia nessas orações

um surdo desespero,

violência terrível

que vinha dessa maldita

necessidade de sentido,

que vinha desse limite

contra o qual me desfazia

e na verdade

nunca me fazia,

que vinha da imprevisível

miséria deste corpo

e da falta de certeza

quanto ao juízo moral.

Tu não eras perfeitamente

desconhecido

porque via-te

no mundo vivo

e tão visível que admiro,

mas não te encontrava

quando queria pensar-te

e nisso estava o meu medo,

não a falta de fé,

mas o medo que um vento

desfizesse em bocados

todas as coisas que amava,

porque isso já aconteceu,

porque isso já aconteceu,

se ao menos tivesses falado comigo,

assim como falaste a Caim,

dizendo: «O que fizeste?…»

e então me tivesses dito

que crimes justificavam

tanta dor e desastre

na vida que tu criaste,

porque foi isso que me oprimiu,

foi isso, meu deus, foi isso

que desde sempre me oprimiu,

esse grão de desespero

que se entalou no centro do corpo

e não desapareceu,

nem se esqueceu,

e que foi pensar na criança

que nasce para a dor,

no cume da inocência

e no esplendor

de uma tão pura transparência

assim, na mais viva alegria

desta existência, 

custou-me mais que o infinito,

custou-me mais que não ter

princípio ou fim

o mundo ou o tempo

que pensamos

e não houve qualquer espécie

de filosofia que me consolasse,

entretanto, deus, por isso,

talvez um dia, nem que seja

para depois de morta,

poder perceber alguma coisa

daquilo que me atormentou,

ainda que seja terrível,

por enquanto inspira-me, Deus,

porque este pensamento

sempre me dilacerou, e tu sabes,

por ele a minha vida

encheu-se de contradições.